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Acabem com o futebol e abram um estacionamento

TEXTO DE Thiago Arantes - ESPN    

Juventus comemora e 2007: vaga na história    Eu estava na Rua Javari naquele domingo, 25 de novembro de 2007. Parece que o mundo inteiro estava lá, mas eram apenas 4 mil privilegiados. Talvez menos, talvez mais. Só não acredite em todo mundo que diz que estava. Eram apenas, repito, privilegiados.

Eu estava na Rua Javari quando o Juventus perdeu por 3 a 2 para o Linense mas, ainda assim e de forma dramática, conquistou o título da Copa Paulista. O gol do 3 a 1 do Linense, que seria o do título, aconteceu aos 47 do segundo tempo; o do Juventus, do 2 a 3, que foi o título, saiu aos 49.

Foi o maior jogo de futebol de todos os tempos para muita gente. Para o torcedor do Juventus, nem discuto. Foi o maior jogo da história e aquilo se explicava em uma palavra: título. O Juventus ganhou um título, um troféu e isso basta.
Mas, no futebol moderno - aquele que para nos portões da Rua Javari - isso não basta. "Copa Paulista? Isso dá vaga pra quê?", perguntou um torcedor na arquibancada. Não era juventino, de certo, devia estar ali infiltrado. Não há algo mais insensível que um ser humano possa fazer.

A Copa Paulista dava vaga na Copa do Brasil. Mas, sinceramente, e daí? Naquele dia 25 de setembro de 2007, era a taça que interessava. Era o título, o suor, as lágrimas, era o golaço de Elias, que na época ainda não era jogador de seleção e agora o tempo passou e ele voltou a não ser. Era o momento de estar no topo, de olhar acima de todos os outros, de se sentir o melhor da Zona Leste, de São Paulo, do Brasil e do Mundo. Depois da festa a gente vê onde fica essa tal de vaga.

O futebol, afinal, é feito de vitórias e derrotas. Ambas, dignas ou indignas, ensinam de certo modo - as derrotas mais, as vitórias menos, mas com o bônus da festa, da alegria, dos erros encobertos pelo papel picado e dos acertos expostos em uma sala de troféus.

Foi o futebol moderno, esse das chuteiras coloridas, dos fones de ouvido e dos personal stylists, que criou uma forma de, vejam só, diminuir as vitórias e as derrotas. A tão sonhada vaga. A vaga, que tornou o futebol mais vago. As vagas, que conseguiram ao mesmo tempo ofuscar títulos e esconder fracassos.

Não há coisa mais triste do que um time ser campeão e, ainda em campo, alguém - jogador, torcida, imprensa - lembrar que Agora com esse título, o time garante vaga na... Calma aí! Com esse título, o time comemora, faz festa, deixa o torcedor feliz da vida, ganha dinheiro, vende camisa. Na vaga a gente fala depois. Não dá pra pensar no nome dos filhos durante o primeiro beijo.

E não há contradição maior do que um time entrar em um torneio sem qualquer ambição de ganhar, pensando que Poxa vida, aquele quinto lugar pode até render uma vaguinha, hein? Não! Ninguém dá o primeiro beijo se já estiver pensando no nome dos filhos.

As vagas são importantes, claro e óbvio que sim. Mas elas não podem ser tudo. Não podem ser mais que um título, não podem ser mais que uma decepção.


Chegará o dia em que o campeão mundial mandará um ofício à Fifa pedindo que o torneio dê vaga em uma competição intercontinental envolvendo campeões de Marte, Saturno e de um playoff envolvendo Plutão e Netuno. Como se as conquistas pudessem se emendar, em looping eterno, para que a derrota e a decepção nunca venham.

Voltemos à Rua Javari.

Aquele título conquistado em 25 de novembro de 2007 deu ao Juventus uma vaga na Copa do Brasil, sim. E, no ano seguinte, o time não fez feio. Conseguiu um milagre contra o Coruripe, vencendo por 5 a 1 depois de levar 4 a 1 fora de casa; depois venceu o Náutico por 2 a 0 na Javari, mas perdeu por 3 a 0 no Recife.

A torcida do Juventus achou bem legal ver o time na Copa do Brasil. Mas o dia de que ninguém se esquece, o dia pelo qual todos se sentem privilegiados, foi aquele 25 de novembro de 2007.
Foi o dia do título. Foi o dia de ser maior que todo mundo. E todo o resto são vagas lembranças.

Comentários

  1. O jogo contra o Nautico não foi na Javari, e sim em Sta Barbara do Oeste, se nao me engano

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